Por que precisamos de um Observatório da Comunicação Popular?
Uma análise sobre desertos de notícias, concentração da mídia e o papel da comunicação popular como prática democrática e educativa.
23 ago, 2025

O Brasil ainda vive sob a sombra dos desertos de notícias: regiões inteiras sem cobertura jornalística local, especialmente Norte e Nordeste. Ainda que iniciativas digitais e rádios comunitárias contribuam para amenizar esse cenário, quase metade da população segue desconectada da notícia sobre seu próprio território. É nesse contexto que nasce o Observatório da Comunicação Popular, com o compromisso de amplificar vozes periféricas, femininas e nordestinas, além de atuar como espaço educativo e crítico para fortalecer a democracia.

Desertos de notícias: um problema recente com raízes históricas

O termo deserto de notícia refere-se a municípios sem veículos jornalísticos locais (online, TV, rádio ou impresso). O Atlas da Notícia (edição 2025) identificou que, entre outubro de 2024 e junho de 2025, houve uma queda de 7,7% no número de desertos no país: 251 municípios passaram a ter ao menos um veículo local, enquanto 43 se tornaram desertos, saldo positivo de 208 localidades .

Apesar disso, ainda 2.504 municípios permanecem sem cobertura jornalística local, atingindo cerca de 45% da população brasileira. No Nordeste, houve o maior avanço em números absolutos, com 143 municípios saindo da condição de deserto, mas a região continua concentrando 890 municípios nessa condição, quase metade do total nordestino.

Boa parte da expansão de cobertura se deve ao crescimento de veículos digitais locais: houve incremento de 8,9%, de 5.245 para 5.712 iniciativas digitais. Muitas operam exclusivamente nas redes sociais, com estrutura enxuta e equipe voluntária, demonstrando o poder da comunicação alinhada aos territórios Revista de Jornalismo LatAm.

Apesar dos avanços, persistem desafios graves:

  • A cobertura digital muitas vezes carece de sustentação financeira e visibilidade.
  • Locais que saem do “deserto” ainda enfrentam falta de pluralidade e qualidade de notícia.
  • A concentração da mídia tradicional segue limitando o acesso da população a narrativas legítimas da sua realidade.

É nesse vácuo que a comunicação popular surge como resistência: coletivos, rádios comunitárias, blogs e mídias indígenas/quilombolas construindo narrativas desde os próprios contextos.

Observatório

O Observatório da Comunicação Popular nasce como uma resposta crítica e propositiva ao problema dos desertos informativos. Ao reunir vozes periféricas, femininas e nordestinas, queremos:

  • Mapear e visibilizar comunicação popular em territórios hoje invisibilizados.
  • Combinar educação midiática com jornalismo crítico, formando leitores e comunicadores.
  • Conectar conhecimento histórico e pesquisas com práticas contemporâneas de base.

O desafio de democratizar a informação é também um chamado para fortalecer nossa democracia. O Observatório é um espaço de escuta, resistência e formação, um projeto que entende que quem não se vê nas manchetes também não existe na memória coletiva. Ao dar voz a outros centros, abrimos caminho para uma comunicação verdadeiramente popular, decolonial e formadora.

Valéria Diniz de Amorim

Valéria Diniz de Amorim

Especialista em Comunicação, Marketing, Eventos, Branding e Growth, possui formações em Gestão e Produção de Negócios Criativos, Computação Gráfica e Educação. Atua há mais de uma década na criação de estratégias e projetos de comunicação com foco em cultura, educação, acessibilidade, meio ambiente e direitos humanos, especialmente no eixo DF–MA. Fundadora da Candiá Produções (2016) e do Observatório da Comunicação Popular (2025).

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