No campo da comunicação popular, falar é poder, mas escutar é transformação. Muito antes de a expressão “escuta ativa” se popularizar em debates pedagógicos ou corporativos, comunidades brasileiras já a praticavam como forma de organizar lutas, construir saberes e resistir a silenciamentos. Inspirada pela pedagogia de Paulo Freire, a escuta na comunicação de base não é passiva: é um processo político de reconhecimento do outro como sujeito de conhecimento.
Se a mídia hegemônica fala sobre os territórios, a comunicação popular fala com e desde os territórios. E para isso, precisa colocar a escuta no centro.
O conceito de escuta ativa
A escuta ativa vai além de “ouvir”. Ela envolve:
- atenção plena, sem interromper ou hierarquizar falas;
- validação da experiência vivida como saber legítimo;
- retorno prático, transformando a fala em ação ou devolutiva.
Na comunicação popular, escutar ativamente significa abrir espaço para que vozes historicamente silenciadas — mulheres periféricas, indígenas, quilombolas, trabalhadores rurais, juventudes — possam conduzir a narrativa.
📖 Referência: Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido (1968, PDF USP)
Paulo Freire: da educação bancária à pedagogia da escuta
Freire criticava a chamada “educação bancária”, em que professores “depositavam” conteúdos nos alunos, sem diálogo. Para ele, esse modelo reproduzia opressões e negava a experiência popular.
“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo.” (Pedagogia do Oprimido, Cap. II).
A escuta, nesse sentido, é ato de liberdade: ouvir o outro não como receptor, mas como coautor do processo educativo. Esse pensamento influenciou gerações de comunicadores comunitários no Brasil, das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) nos anos 1970 às rádios comunitárias e coletivos digitais de hoje.
Escuta nos territórios: práticas históricas e atuais
Comunidades Eclesiais de Base (1960–70)
As CEBs organizavam círculos bíblicos e encontros comunitários onde a escuta coletiva dava sentido político à vida cotidiana. Era a pedagogia freireana na prática: cada pessoa trazia sua palavra, que se transformava em ação comunitária.
Rádios comunitárias (1980–90)
Mesmo antes da legalização em 1998 (Lei 9.612/1998), rádios de bairro e vilarejo transmitiam programas baseados na participação popular: músicas pedidas pelo público, debates abertos, prestação de serviços. O ouvinte não era consumidor, mas protagonista.
📖 Referência: Cicilia Peruzzo – Comunicação comunitária e popular na era digital (Intercom, 2009)
Jornais murais e impressos de bairro (anos 1990–2000)
Muitas periferias urbanas produziram jornais murais em escolas, sindicatos ou praças. Eram construídos com base em relatos da comunidade — uma escuta que virava texto coletivo.
Coletivos digitais (2010 em diante)
Hoje, iniciativas como Favela em Pauta, Alma Preta Jornalismo e Mídia Índia usam redes sociais para amplificar vozes de base. Suas metodologias seguem a lógica da escuta: cobrir pautas a partir do que as comunidades dizem, não do que as redações tradicionais decidem.
📖 Referência: Ajor – Associação de Jornalismo Digital
Desafios contemporâneos da escuta ativa
Apesar da centralidade da escuta, há obstáculos significativos:
- Velocidade das redes sociais: a lógica do imediatismo reduz espaço para diálogos lentos e aprofundados.
- Algoritmos e bolhas informacionais: plataformas priorizam conteúdos virais, dificultando a circulação de vozes periféricas.
- Apropriação indevida: pesquisas acadêmicas ou ações de ONGs muitas vezes coletam falas em comunidades sem retorno ou partilha de resultados.
- Fetichização da periferia: transformar falas em “objeto de estudo” sem devolver poder real.
📖 Referência: Intervozes
Escuta como prática de democracia
A escuta ativa não é só método pedagógico: é prática democrática. No Brasil, onde a concentração midiática reduz a diversidade de narrativas, a escuta se torna estratégia de redistribuição simbólica de poder.
Ela desloca a centralidade da fala: o protagonismo não está em quem publica a notícia, mas em quem partilha sua experiência.
A comunicação popular não se mede apenas pela quantidade de vozes que falam, mas pela qualidade da escuta que sustenta cada narrativa. Colocar a escuta no centro é reconhecer que sem ouvir o povo, não há democracia informacional possível.
O Observatório da Comunicação Popular nasce, portanto, como espaço de escuta radical, onde vozes periféricas, femininas e nordestinas não são apenas fontes, mas sujeitos ativos de memória, política e futuro.






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