A comunicação popular sempre existiu no Brasil como prática de resistência, cultura e educação política. Enraizada em comunidades, igrejas de base, sindicatos e movimentos, atravessou censuras, crises e mudanças tecnológicas, da imprensa alternativa sob a ditadura aos coletivos digitais de hoje. Mais que um “formato de mídia”, é um instrumento de emancipação: disputar narrativas a partir de quem vive o território.
Anos 1960–70: educação popular e imprensa alternativa
A pedagogia de Paulo Freire consolidou a ideia de comunicação como diálogo horizontal, não “depósito” de informações. Em Pedagogia do Oprimido, Freire fundamenta a crítica ao modelo vertical e a defesa da palavra como práxis transformadora.
Sob a ditadura militar (1964–1985), jornais da imprensa alternativa desafiaram a censura — entre eles O Pasquim (1969) e Opinião (1972). O período está mapeado em Bernardo Kucinski, Jornalistas e revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa (Edusp).
Anos 1980–90: rádios comunitárias e a luta por reconhecimento
Com a redemocratização, rádios livres e comunitárias multiplicaram vozes nas periferias e áreas rurais. Em 1998, o Congresso aprovou a Lei 9.612, que institui a radiodifusão comunitária (RadCom); o Decreto 2.615/1998 regulamenta o serviço. As regras trazem limites (ex.: potência baixa), tema central para a sustentabilidade desses veículos.
Pesquisas de Cicilia Peruzzo e documentos do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) situam as rádios comunitárias como eixo de pluralização local e direito à comunicação.
Anos 2000–2010: comunicação cidadã e internet popular
Nos anos 2000, projetos de mídia cidadã integraram agendas de educação, juventude e direitos humanos, com a internet abrindo espaço a blogs, sites e redes de colaboração. A ANDI – Comunicação e Direitos registra esse movimento, com foco em juventudes e políticas públicas de comunicação.
Anos 2010–2020: mídias periféricas, indígenas e feministas em rede
Com um celular na mão, coletivos periféricos, indígenas, quilombolas, negros e feministas ampliaram o jornalismo de base no Facebook, YouTube, Instagram e podcasts. Exemplos reconhecidos incluem Mídia NINJA (rede colaborativa), Alma Preta Jornalismo (temática racial) e AzMina (igualdade de gênero); a Mídia Índia consolida uma rede indígena de comunicação.
A Ajor – Associação de Jornalismo Digital (fundada em 2021) reúne veículos independentes e publica diagnósticos sobre o ecossistema digital brasileiro.
Hoje: redução de “desertos”, novos limites e velhas concentrações
A 7ª edição do Atlas da Notícia (2025) registrou redução de 7,7% nos desertos de notícias em dois anos (251 municípios saíram da condição e 43 entraram), impulsionada pelo crescimento de iniciativas online (de 5.245 para 5.712, +8,9%). Ainda assim, 2.504 municípios não têm jornalismo local (cobrem 10,2% da população).
Em paralelo, persistem concentração midiática e vulnerabilidade econômica das iniciativas digitais (fechamento de veículos, dependência de plataformas e seus algoritmos). A Ajor e a própria equipe do Atlas chamam atenção para a necessidade de políticas de fomento, formação e preservação de acervos.





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