Atlas da Notícia e os desertos informacionais: apagamentos no Norte e Nordeste
O Atlas da Notícia 2025 mostra que desertos de notícias ainda se concentram no Norte e Nordeste. Entenda causas históricas, impactos democráticos e resistências locais.
23 ago, 2025

No Brasil, a concentração midiática sempre teve cor, classe e endereço. As grandes redações se consolidaram nos eixos Sul-Sudeste, enquanto vastas áreas do país permaneceram invisíveis para o jornalismo hegemônico. Essa desigualdade se expressa no conceito de “desertos de notícias”, popularizado pelo Atlas da Notícia: municípios sem qualquer veículo jornalístico local.

Em 2025, mesmo com avanços na digitalização e no surgimento de novas iniciativas, o mapa do Atlas mostra que o problema persiste, e se concentra sobretudo no Norte e Nordeste, regiões historicamente atingidas pelo apagamento informacional.

O que são desertos e quase-desertos de notícia

Segundo a metodologia do Atlas da Notícia, um município é considerado deserto quando não há nenhum veículo jornalístico local ativo. Já os quase-desertos são localidades com apenas um veículo — geralmente frágil, de alcance limitado e sem atualização frequente.

Esse conceito não é neutro: ele evidencia a falta de pluralidade informacional e os riscos de comunidades inteiras ficarem dependentes de fontes externas ou de redes sociais para obter informações básicas sobre sua realidade.

Panorama nacional em 2025

A 7ª edição do Atlas trouxe avanços:

  • Houve redução de 7,7% no número de desertos entre 2023 e 2025.
  • 251 municípios deixaram de ser desertos, mas outros 43 entraram nessa condição, resultando em um saldo positivo de 208 localidades.
  • Ainda assim, 2.504 municípios brasileiros permanecem sem cobertura jornalística local, abrangendo cerca de 10,2% da população.
  • O segmento digital foi decisivo: o número de iniciativas online locais cresceu 8,9%, passando de 5.245 em 2023 para 5.712 em 2025.

Referência: Atlas da Notícia 2025 – Resultados gerais

A geografia desigual da informação

Nordeste

  • Foi a região que mais reduziu desertos: 143 municípios saíram dessa condição.
  • Mesmo assim, ainda há 890 desertos informativos, quase metade do total da região.
  • Estados como Maranhão, Piauí e Alagoas continuam entre os mais afetados.

Norte

  • Proporcionalmente, é a região mais atingida: extensas áreas amazônicas seguem sem jornalismo local.
  • Municípios isolados, sem acesso contínuo à internet ou transporte, dependem de redes comunitárias ou rádios locais informais.

Centro-Oeste

  • Também enfrenta vazios informativos, sobretudo no interior de Goiás e Mato Grosso.
  • Muitas cidades dependem de retransmissoras de TV sediadas em capitais, sem cobertura própria do município.

Referência: LatAm Journalism Review – Desertos de notícias reduzem 7,7% em dois anos

Causas estruturais dos desertos

  1. Concentração da mídia: a propriedade dos veículos segue nas mãos de poucos grupos, localizados no Sul-Sudeste. Relatórios de Intervozes e Repórteres sem Fronteiras mostram que mais de 70% das concessões de TV estão concentradas em redes nacionais.
  2. Fragilidade econômica: pequenas redações locais não sobrevivem sem apoio público ou comunitário. A falta de políticas de fomento agrava a situação.
  3. Infraestrutura precária: milhares de comunidades ribeirinhas, quilombolas e rurais ainda enfrentam problemas de energia elétrica, conectividade e acesso a banda larga.
  4. Desvalorização política: a comunicação local raramente é tratada como política pública estratégica, ficando à mercê de voluntariado ou projetos pontuais.

Referência: FNDC – Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação

Consequências democráticas

Os desertos de notícias não são apenas uma questão jornalística: eles impactam diretamente a qualidade da democracia. Onde não há cobertura local:

  • Cresce a desinformação, já que redes sociais viram principal fonte de informação.
  • Falta fiscalização de gestores públicos municipais.
  • As comunidades perdem visibilidade, com apagamento de suas lutas, culturas e saberes.
  • Aumenta a dependência de veículos nacionais, que raramente pautam a realidade local com profundidade.

Referência: Intervozes – Direito à comunicação no Brasil

Resistências e alternativas no Norte e Nordeste

Apesar do cenário crítico, há muita potência invisibilizada:

  • Rádios comunitárias amazônicas, que funcionam com voluntariado e servem como principais canais de informação e cultura.
  • Jornais de bairro e impressos populares em cidades médias do Nordeste, muitas vezes distribuídos gratuitamente.
  • Coletivos digitais como Marco Zero Conteúdo (Recife), Agência Tambor (Maranhão) e Mídia Índia (Amazônia), que enfrentam os desertos com narrativas de base.
  • Iniciativas quilombolas e indígenas, que usam podcasts, lives e boletins em aplicativos de mensagem para furar o bloqueio da grande mídia.

Essas experiências mostram que, embora o Atlas registre ausência de “veículos formais”, a comunicação popular pulsa e resiste nos territórios.

O Atlas da Notícia 2025 confirma que os desertos de informação seguem sendo um problema estrutural e desigual: concentram-se no Norte e Nordeste, reforçando o abismo histórico da comunicação no Brasil.

Mas também revela caminhos de esperança: o crescimento do digital, a inventividade dos comunicadores de base e a persistência das rádios comunitárias demonstram que o povo nunca deixou de produzir notícia.

O desafio agora é político: reconhecer, apoiar e financiar essas iniciativas, valorizando a comunicação popular como parte essencial da democracia.

Valéria Diniz de Amorim

Valéria Diniz de Amorim

Especialista em Comunicação, Marketing, Eventos, Branding e Growth, possui formações em Gestão e Produção de Negócios Criativos, Computação Gráfica e Educação. Atua há mais de uma década na criação de estratégias e projetos de comunicação com foco em cultura, educação, acessibilidade, meio ambiente e direitos humanos, especialmente no eixo DF–MA. Fundadora da Candiá Produções (2016) e do Observatório da Comunicação Popular (2025).

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