Justiça Ambiental começa com escuta: por que ela é central para o futuro do Cerrado
Justiça ambiental é mais do que um conceito: é uma lente crítica e necessária para enxergar e transformar as desigualdades que atravessam as crises climáticas, ambientais e sociais do nosso tempo. Muito além da conservação de florestas ou da redução de emissões, ela nos obriga a responder a uma pergunta incômoda: quem paga o preço da […]
1 jul, 2026
Foto: Mídia Ninja

Justiça ambiental é mais do que um conceito: é uma lente crítica e necessária para enxergar e transformar as desigualdades que atravessam as crises climáticas, ambientais e sociais do nosso tempo. Muito além da conservação de florestas ou da redução de emissões, ela nos obriga a responder a uma pergunta incômoda: quem paga o preço da degradação ambiental no Brasil? Em geral, os mais expostos à contaminação, à perda de território e à invisibilidade política, são justamente os grupos que mais cuidam da natureza: as comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, agricultores familiares, povos extrativistas e moradores das periferias urbanas.

O termo “racismo ambiental” foi cunhado em 1982 por Benjamin Chavis Jr., ativista do movimento negro norte-americano, durante protestos contra a instalação de um aterro de resíduos tóxicos em uma comunidade majoritariamente negra no condado de Warren, na Carolina do Norte. O episódio se tornou um marco do movimento por justiça ambiental, que denuncia a exposição desigual aos riscos ambientais com base em raça, classe, origem ou etnia.

Desde então, o conceito ganhou projeção global, articulando lutas por direitos territoriais, saúde ambiental e justiça climática em diversos continentes. No Brasil, o racismo ambiental assume contornos históricos. A ocupação do território nacional foi marcada por grilagem, expropriação de comunidades negras e indígenas e políticas públicas que excluíram sistematicamente as vozes da base social. Esse padrão se reproduz hoje em áreas com saneamento precário, alta exposição a agrotóxicos e ausência de participação nos espaços decisórios.


O Cerrado como território de conflito e potência

O Cerrado brasileiro ocupa cerca de 25% do território nacional e abriga mais de 25 milhões de pessoas, incluindo comunidades tradicionais, povos indígenas e populações do campo, da floresta e das águas. É um bioma estratégico para o equilíbrio climático e hídrico do Brasil: abastece oito das principais bacias hidrográficas do país e guarda uma das maiores biodiversidades do planeta.

Apesar disso, é também o bioma mais ameaçado atualmente. Segundo o Relatório Anual de Desmatamento (RAD) 2024, do MapBiomasmais da metade de toda a área desmatada no Brasil em 2023 ocorreu no Cerrado, que registrou 1,11 milhão de hectares de vegetação nativa suprimidos, um aumento de 68% em relação a 2022. Pela primeira vez desde o início da série histórica do relatório, o Cerrado ultrapassou a Amazônia em área total desmatada.

Matopiba passa a Amazônia e assume a liderança do desmatamento no Brasil


Fonte: MapBiomas / RAD 2023

Esse avanço é impulsionado principalmente pela expansão do agronegócio, que responde por 97% dos desmatamentos registrados no país. O epicentro desse processo é a região do MATOPIBA (sigla para Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), que concentrou 75% do desmatamento do Cerrado e cerca de 42% de toda a perda de vegetação nativa no país. Desses, o Maranhão liderou o ranking nacional. Ao todo, foram 218.298 hectares de vegetação perdidos.

Essa realidade escancara desigualdades históricas e conflitos fundiários. Por trás dos hectares derrubados, há a intensificação da grilagem de terras públicas, o avanço descontrolado de monoculturas, a pressão de grandes empreendimentos e a invisibilização dos modos de vida dos povos do Cerrado. Mulheres, jovens, quilombolas, indígenas e pequenos agricultores enfrentam cotidianamente os impactos da degradação ambiental sem garantias de políticas públicas, proteção territorial ou acesso à justiça.

O Cerrado é, portanto, território de conflito e potência: lugar onde se manifestam as forças predatórias da economia, mas também onde brotam saberes ancestrais, resistências e alternativas sustentáveis. Valorizar sua diversidade e proteger seus guardiões é fundamental para a justiça climática e o futuro do planeta.

O que é justiça ambiental, afinal?

De forma simples, justiça ambiental é garantir o direito de todos a um ambiente saudável e seguro, com acesso equitativo aos bens naturais (água, terra, ar limpo), sem discriminação ou violência. Mas é também uma luta por reparação: escutar, valorizar e garantir que as comunidades mais afetadas tenham protagonismo nas decisões sobre seus territórios e futuros.

No Cerrado, isso significa defender o direito de existir com dignidade, fortalecer redes locais de cuidado e garantir que a conservação ambiental caminhe junto com equidade social. Significa também denunciar o racismo ambiental e atuar por políticas públicas que respeitem a vida em todas as suas formas.


Caminhos para a equidade socioambiental

No Brasil, falar em justiça ambiental é, antes de tudo, falar em justiça territorial. É garantir o direito de permanecer com dignidade onde se planta, colhe, reza, canta e resiste. É reconhecer que conservar o bioma não se separa de respeitar quem o habita e protege há gerações.

Justiça ambiental começa assim: com a disposição de escutar e a coragem de agir a partir do que se escuta. O Cerrado não é uma fronteira produtiva a ser explorada. É um território vivo, ancestral e estratégico para o equilíbrio ecológico do Brasil. Seu futuro, e o nosso, depende da capacidade de colocar a justiça no centro das decisões ambientais, com escuta, compromisso e ação coletiva.

PUBLICADO ORIGINALMENTE NO SITE DO CEPF CERRADO: https://cepfcerrado.iieb.org.br/noticias/justica-ambiental-comeca-com-escuta-por-que-ela-e-central-para-o-futuro-do-cerrado/

Valéria Diniz de Amorim

Valéria Diniz de Amorim

Especialista em Comunicação, Marketing, Eventos, Branding e Growth, possui formações em Gestão e Produção de Negócios Criativos, Computação Gráfica e Educação. Atua há mais de uma década na criação de estratégias e projetos de comunicação com foco em cultura, educação, acessibilidade, meio ambiente e direitos humanos, especialmente no eixo DF–MA. Fundadora da Candiá Produções (2016) e do Observatório da Comunicação Popular (2025).

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