Quem decide o que vira notícia sobre um território?
Entre denúncias que não chegam às redações, desertos de notícias e critérios editoriais definidos longe de onde os fatos acontecem, comunicadores populares enfrentam o desafio de transformar problemas locais em assuntos de interesse público. A saída pode estar menos em esperar que a grande mídia descubra os territórios e mais em fortalecer processos de apuração, proteção, circulação e colaboração jornalística.
20 ago, 2026

Uma denúncia pode chegar acompanhada de fotografias, vídeos, documentos, relatos de moradores e anos de mobilização comunitária. Pode tratar de um rio contaminado, do avanço do desmatamento, da ausência de atendimento de saúde, de uma ameaça contra uma liderança, da violação de um território tradicional ou da execução de uma política pública que simplesmente não funciona. Para quem vive naquele lugar, o problema é urgente. Algumas vezes, é uma questão de sobrevivência.

Ainda assim, a história pode nunca chegar ao noticiário.

Entre aquilo que acontece em um território e aquilo que o restante do país reconhece como notícia existe uma cadeia de decisões. Alguém precisa identificar o fato, documentá-lo, compreender o contexto, encontrar fontes, verificar informações, construir uma pauta, convencer uma redação de sua relevância e disputar espaço com dezenas de outros acontecimentos.

É nesse percurso que muitas histórias desaparecem.

A pergunta, portanto, não é apenas o que é notícia?

É também: quem tem condições de fazer alguma coisa se tornar notícia?

Antes da grande mídia, há territórios sem jornalismo

O problema começa muito antes da porta de entrada das grandes redações.

O Atlas da Notícia identificou, em seu levantamento de 2025, 2.504 municípios brasileiros classificados como desertos de notícias, onde vivem cerca de 20,6 milhões de pessoas. Outros 1.808 municípios eram considerados quase desertos, contando com apenas um ou dois veículos jornalísticos. O Nordeste concentrava 890 municípios sem jornalismo local, o maior número entre as regiões brasileiras.

Há movimentos importantes na direção contrária. Entre uma edição e outra do levantamento, 143 municípios nordestinos deixaram a condição de deserto, impulsionados especialmente pelo crescimento de rádios e iniciativas digitais. Mais de 85% dos 3.011 veículos identificados na região eram rádios ou meios nativos digitais.

O dado ajuda a deslocar a discussão.

Quando falamos que uma determinada comunidade “não aparece na mídia”, talvez devêssemos perguntar primeiro se existe alguém naquele território recebendo salário, estrutura e condições para acompanhar o que acontece ali todos os dias.

Onde não há repórter, não há apenas menos notícias. Há menos gente acompanhando licitações, audiências públicas, conflitos fundiários, mudanças ambientais, decisões de vereadores, orçamento público, políticas de saúde ou educação e acontecimentos aparentemente pequenos que, acompanhados ao longo do tempo, revelam transformações profundas.

A consequência é uma desigualdade também na capacidade de produzir realidade pública.

Há acontecimentos permanentemente observados pela imprensa. Outros precisam atravessar centenas ou milhares de quilômetros para serem percebidos.

Uma denúncia não é uma reportagem pronta

Esse é um ponto delicado porque, muitas vezes, organizações, movimentos sociais e comunidades enviam uma denúncia para jornalistas e interpretam a ausência de publicação como falta de interesse.

Em alguns casos, pode realmente haver desinteresse editorial. Em outros, porém, existe um problema anterior: uma denúncia é o início de uma apuração, não necessariamente uma pauta pronta para publicação.

O papel do jornalismo não é apenas repercutir uma acusação. É verificar.

Quem denuncia? O que aconteceu? Quando? Existem documentos? Há outras testemunhas? Há dados públicos que confirmam parte da informação? Quem é acusado? Essa pessoa ou instituição foi procurada? Existe histórico do problema? Quais interesses estão envolvidos? Há risco para quem está falando?

Transformar uma denúncia em uma reportagem significa construir uma cadeia de evidências.

E quanto mais distante uma redação está do território, maior costuma ser sua dependência de informações organizadas por quem está próximo dele.

Isso não significa que comunidades devam fazer o trabalho das redações para merecer cobertura. Significa reconhecer que fortalecer protocolos de documentação pode aumentar a capacidade de uma história atravessar fronteiras territoriais.

Uma denúncia bem documentada pode reunir uma cronologia dos acontecimentos, documentos originais, identificação das fontes que podem falar publicamente e daquelas que precisam ser protegidas, fotografias ou vídeos com data e contexto conhecidos, dados públicos relacionados ao caso, localização precisa, contatos de pessoas que possam confirmar informações e um resumo claro sobre o que aconteceu e por que aquilo possui interesse público.

Parece simples. Nem sempre é.

Há territórios em que produzir essas informações significa enfrentar agentes econômicos, autoridades locais, redes criminosas ou pessoas que exercem influência direta sobre a vida cotidiana daquela comunidade.

Por isso, protocolo de comunicação também precisa ser protocolo de segurança.

Publicar pode aumentar o risco

A máxima segundo a qual “é preciso dar visibilidade para proteger” não funciona em todas as situações.

Em determinados conflitos, publicar nomes, imagens, localizações ou detalhes de uma denúncia pode aumentar a exposição de uma fonte.

Antes de transformar um relato em conteúdo, é necessário avaliar quem pode ser identificado, quais informações precisam permanecer sob sigilo, quem tem autorização para falar em nome de um grupo, quais documentos podem ser divulgados e quais consequências a publicação pode produzir.

Esse cuidado é especialmente importante quando a comunicação atravessa conflitos ambientais, territoriais e de direitos humanos.

O próprio Estado brasileiro reconhece comunicadores como sujeitos que podem necessitar de proteção em decorrência de sua atividade. O Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas, o PPDDH, contempla comunicadores profissionais ou pessoas e grupos que exercem de forma sistemática o direito à liberdade de expressão e de imprensa e enfrentam risco, ameaça ou violência em razão dessa atuação. O programa recebe solicitações de inclusão feitas pela própria pessoa ameaçada, organizações da sociedade civil, movimentos sociais, órgãos públicos ou terceiros.

A existência dessa política diz algo importante sobre comunicação territorial: em determinados lugares, produzir informação não é somente um trabalho editorial. É também uma atividade de risco.

Em 2024, a Federação Nacional dos Jornalistas registrou 144 episódios de violência contra jornalistas e veículos de comunicação no Brasil, média próxima de uma ocorrência a cada dois dias e meio.

Por isso, nenhuma estratégia para “emplacar uma pauta” deveria começar pela exposição de uma pessoa vulnerável.

Primeiro vem a segurança. Depois, a publicação.

Por que algumas pautas não atravessam a fronteira do território?

Existe também uma questão estrutural.

Grandes redações trabalham com equipes, agendas, prioridades e critérios de seleção. Uma disputa territorial ocorrida em uma comunidade distante pode concorrer, no mesmo dia, com decisões do Congresso, uma crise econômica, uma operação policial, acontecimentos internacionais e dezenas de outros fatos.

Problemas contínuos também enfrentam uma dificuldade particular: muitas vezes não possuem um acontecimento novo que justifique a cobertura naquele exato momento.

A contaminação de um rio que persiste há dez anos pode ser mais importante para uma comunidade do que uma declaração feita naquela manhã por uma autoridade pública. Mas a declaração contém algo muito valorizado pelo ciclo noticioso: novidade.

Há ainda uma concentração histórica dos centros de produção da mídia brasileira. Um levantamento realizado pelo Intervozes e pela Repórteres sem Fronteiras sobre os veículos de maior audiência encontrou forte concentração dos grupos de comunicação e de suas estruturas de decisão nas regiões Sul e Sudeste. Embora esse mapeamento tenha sido realizado em 2017 e não deva ser tratado como fotografia atual do setor, ele segue sendo utilizado como referência no debate brasileiro sobre pluralidade e propriedade da mídia.

Distância geográfica não determina sozinha o que entra no noticiário. Mas distância física, econômica e social influencia aquilo que uma redação conhece, acompanha e reconhece imediatamente como relevante.

É por isso que determinados acontecimentos precisam primeiro ser traduzidos para dentro da lógica da pauta.

E traduzir não significa abandonar a linguagem ou a perspectiva do território.

Significa demonstrar por que aquela história interessa também a quem não vive ali.

Em vez de perguntar apenas “como emplacar?”, pergunte “qual é a história?”

Um dos erros mais comuns na relação entre organizações sociais e imprensa acontece quando a causa é apresentada como se fosse, por si só, uma pauta.

“Precisamos falar sobre conservação do Cerrado.”

“Precisamos divulgar a situação desta comunidade.”

“Queremos dar visibilidade à agricultura familiar.”

“Precisamos falar sobre a importância deste projeto.”

Todos podem ser temas socialmente relevantes. Nenhum deles, isoladamente, constitui necessariamente uma reportagem.

Uma pauta começa a surgir quando encontramos uma pergunta, uma descoberta, um conflito, uma contradição ou uma mudança.

O que está acontecendo agora que antes não acontecia?

Quem é afetado?

Que documento revela algo desconhecido?

Existe um dado novo?

Uma política prometeu determinada coisa e produziu outra?

Uma comunidade encontrou uma resposta para um problema enfrentado também por outros territórios?

Uma experiência está funcionando? Como sabemos?

O território deixa de aparecer apenas como cenário e passa a produzir conhecimento.

Essa mudança de perspectiva pode ser decisiva.

O jornalismo de soluções pode abrir outra porta

Boa parte das pautas territoriais chega às redações pelo caminho da crise.

A floresta que queimou. O rio que secou. A comunidade ameaçada. A violência que ocorreu. A política que falhou.

Esses fatos precisam ser denunciados. O jornalismo tem uma função indispensável de fiscalização e responsabilização.

Mas existe outra pergunta possível: o que as pessoas estão fazendo diante do problema?

É aí que o jornalismo de soluções pode ajudar.

Ele não significa produzir “notícias positivas”, promover projetos ou substituir denúncia por histórias inspiradoras. A metodologia parte de uma resposta concreta a um problema e procura investigar quatro dimensões: como essa resposta funciona, quais evidências existem sobre seus resultados, que aprendizados podem ser extraídos e quais são suas limitações.

A diferença é importante.

Uma reportagem promocional diz que uma iniciativa é transformadora.

Uma reportagem de soluções pergunta se ela realmente transforma alguma coisa, como, para quem, com quais evidências e até onde.

Imagine uma comunidade enfrentando escassez de água.

A denúncia continua sendo essencial: por que falta água? Quem deveria garantir o abastecimento? Existe responsabilidade do poder público? Há impactos de atividades econômicas?

Mas outra investigação pode acompanhar a resposta construída naquele território. A comunidade criou um sistema próprio de monitoramento? Organizou cisternas coletivas? Recuperou nascentes? Mudou uma prática produtiva? Conseguiu alterar uma política municipal?

Se sim, a pauta seguinte não deveria perguntar apenas se “o projeto deu certo”.

Deveria investigar como funciona, quanto custa, quem participa, quais resultados podem ser medidos, o que fracassou, quem ficou de fora e se aquela experiência ensina alguma coisa para outros lugares.

É justamente a presença das limitações que separa jornalismo de soluções de propaganda.

E existe uma potência política nesse enquadramento: territórios frequentemente representados apenas pela tragédia passam a aparecer também como lugares onde conhecimento é produzido.

A grande mídia não precisa ser o único destino

Talvez este seja o deslocamento mais importante.

Durante muito tempo, conseguir espaço em um grande jornal, emissora ou portal foi tratado como o estágio máximo de visibilidade de uma pauta.

Essa cobertura continua tendo enorme capacidade de amplificação e pode ser estratégica, especialmente quando uma questão precisa alcançar autoridades nacionais ou ampliar pressão pública.

Mas ser ignorado por um grande veículo não transforma um fato em menos importante.

Hoje uma história pode começar em uma rádio comunitária, circular por WhatsApp, ser publicada por um veículo independente, ganhar documentação em uma reportagem local, chegar a jornalistas especializados, atravessar uma rede de comunicação e somente depois despertar interesse de uma redação nacional.

Em outros casos, talvez nunca chegue a ela.

Ainda assim pode produzir consequência.

A redução recente dos desertos de notícias no Nordeste mostra justamente a relevância de rádios e iniciativas digitais na reconstrução do jornalismo local.

Por isso, contornar o bloqueio não deveria signific simplesmente procurar cem jornalistas até que alguém responda.

Pode signific construir redes de circulação.

Veículos locais podem colaborar com organizações independentes. Comunicadores populares podem estabelecer relações continuadas com jornalistas que cobrem determinados temas. Reportagens podem ser produzidas conjuntamente. Bancos de fontes podem aproximar especialistas e pessoas dos territórios. Fotografias, dados, documentos e contatos podem ser organizados antes de uma emergência. Rádios, newsletters, sites, podcasts e grupos de mensagens podem distribuir versões adequadas do mesmo conteúdo.

E uma reportagem publicada localmente pode se tornar a documentação necessária para que outra investigação comece.

Em vez de uma cadeia vertical, na qual a informação só ganha legitimidade quando chega ao topo, constrói-se uma rede.

Um pequeno protocolo antes de enviar uma denúncia

Para comunicadores, organizações e coletivos, algumas perguntas podem ajudar antes do contato com uma redação:

O que aconteceu?
Descreva o fato, e não apenas o tema.

O que podemos provar?
Separe claramente documento, dado, testemunho, indício e interpretação.

Quem pode falar?
Identifique fontes públicas e fontes que necessitam de proteção.

Há risco em publicar?
Avalie exposição, localização, imagens e informações que possam identificar pessoas vulneráveis.

O que torna isso relevante agora?
Procure o acontecimento, decisão, dado ou mudança que cria atualidade.

Quem precisa responder?
Mapeie autoridades, empresas ou instituições às quais devem ser apresentados os questionamentos.

Por que alguém de fora do território deveria conhecer essa história?
Não para tornar o problema “mais importante”, mas para revelar suas conexões.

Existe uma resposta sendo construída?
Se existir, investigue-a. Não para celebrá-la, mas para compreender como funciona, quais resultados apresenta e quais são seus limites.

Esse processo não garante publicação.

Mas melhora aquilo que deveria antecedê-la: a capacidade de transformar informação em conhecimento público verificável.

Afinal, quem decide?

Editores decidem. Repórteres decidem. Empresas de comunicação decidem. Algoritmos influenciam. Recursos financeiros determinam onde haverá uma equipe e onde haverá apenas silêncio. Critérios jornalísticos definem prioridades. Relações de poder também atravessam essas escolhas.

Mas essa não é toda a resposta.

Comunidades também constroem seus próprios circuitos de informação. Comunicadores populares documentam acontecimentos antes que eles sejam percebidos fora de seus territórios. Pequenos veículos acompanham histórias durante anos. Rádios comunitárias chegam onde redações nacionais dificilmente chegarão. Jornalistas independentes formam redes, colaboram, compartilham dados e fazem investigações atravessarem fronteiras.

Talvez democratizar a comunicação passe justamente por deixar de imaginar uma única porta de entrada para o debate público.

A pergunta “quem decide o que vira notícia?” continuará sendo necessária enquanto o poder de produzir visibilidade estiver distribuído de maneira tão desigual.

Mas há outra pergunta que pode nos levar adiante:

como fazer com que um território não precise esperar que alguém de fora decida que sua história merece ser contada?

Valéria Diniz de Amorim

Valéria Diniz de Amorim

Especialista em Comunicação, Marketing, Eventos, Branding e Growth, possui formações em Gestão e Produção de Negócios Criativos, Computação Gráfica e Educação. Atua há mais de uma década na criação de estratégias e projetos de comunicação com foco em cultura, educação, acessibilidade, meio ambiente e direitos humanos, especialmente no eixo DF–MA. Fundadora da Candiá Produções (2016) e do Observatório da Comunicação Popular (2025).

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