Plantar água, curar a terra: o renascimento do Pindaré na TI Krikati
A cabeceira do Rio Pindaré, que também nasce na TI Krikati, foi soterrada pela MA-280. Agora, o povo indigena luta para “plantar água” e recuperar a vida no Cerrado maranhense.
4 set, 2025

A estrada federal MA-280 atravessa o coração da Terra Indígena Krikati com pressa. Rasga florestas, silencia vidas e, em um trecho específico, soterrou uma das três cabeceiras de um dos rios mais importantes do estado: o Pindaré.

O povo Krikati, que habita a região há gerações, viu a água desaparecer. Onde antes havia um riacho usado para banho, pesca e rituais, restou terra seca, erosão e a ausência dos peixes que alimentavam o corpo e o espírito.

“Hoje a gente tenta recuperar essa nascente, um trabalho muito árduo. Mas não é só do povo Krikati. É também da sociedade. Precisamos de apoio e ação humana para recuperar essa área degradada”, afirma a professora Silvia Cristina Pyxcuryh Krikati.

Silvia lembra da infância no rio. Fala com dor da água que parou de correr e dos peixes que desapareceram. O surubin, chamado “Cõorõ” em sua língua, era parte dos rituais sagrados. Assim como o pial, o curimatá, espécies nativas que desapareceram com o desmatamento e assoreamento da cabeceira. 

“Se os jovens não conhecem mais esses peixes, vão achar normal não existirem. Isso condena o futuro das gerações.” alerta.

Um esforço que já dá sinais de vida

Hoje, a comunidade Krikati está mobilizada para reverter essa história. Com apoio do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) e Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF), através de fundos do Governo do Canadá para fortalecer ações de conservação no Cerrado, iniciaram um processo de restauração das matas ciliares e de recuperação da nascente soterrada. Chamam essa ação de “plantar água”, mais do que uma metáfora, é um princípio ancestral de cuidado, regeneração e soberania territorial.

O esforço já começa a dar frutos, durante visita recente da comitiva ao território, foi possível testemunhar não apenas a água aparecendo, mas também animais retornando: um caranguejo cavou um buraco às margens da nascente, sinal claro de que o ecossistema está reagindo.

Por que o Pindaré importa?

Com cerca de 720 km de extensão, o Rio Pindaré percorre dezenas de municípios maranhenses até encontrar o Mearim, abastecendo comunidades ribeirinhas, reservas extrativistas e áreas de produção agrícola. Recuperar as suas nascentes, especialmente as que resistem dentro de territórios indígenas, é proteger a soberania hídrica da região, e afirmar o protagonismo de quem historicamente a defende.

A recuperação da nascente do Pindaré na TI Krikati vai além de restaurar um curso d’água: trata-se de reparar um violento corte no território, que afetou práticas culturais, modos de vida e a própria identidade do povo.

Chamado urgente

A restauração da nascente precisa ser tratada como prioridade coletiva. É urgente que o poder público e instituições ambientais reforcem o apoio técnico, legal e financeiro às ações em curso, especialmente nas áreas sob impacto direto da MA-280. É necessária, também, a instalação de uma ponte ou estrutura adequada na rodovia, para evitar novos soterramentos e garantir a continuidade do fluxo das águas. E é fundamental que a floresta volte a respirar, que os pássaros retornem, que o caranguejo encontre abrigo, que os peixes sagrados reapareçam, e que os ciclos naturais do rio floresçam de novo.

Este rio que secou com o asfalto agora brota de um esforço coletivo. Com cuidado, coragem e escuta, ele pode voltar a correr, levando água, cultura e esperança ao povo Krikati e a todo o Maranhão.

Valéria Diniz de Amorim

Valéria Diniz de Amorim

Especialista em Comunicação, Marketing, Eventos, Branding e Growth, possui formações em Gestão e Produção de Negócios Criativos, Computação Gráfica e Educação. Atua há mais de uma década na criação de estratégias e projetos de comunicação com foco em cultura, educação, acessibilidade, meio ambiente e direitos humanos, especialmente no eixo DF–MA. Fundadora da Candiá Produções (2016) e do Observatório da Comunicação Popular (2025).

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