O que é um fanzine?
O fanzine, ou simplesmente zine, é uma publicação artesanal, feita com poucos recursos, geralmente impressa em papel comum, xerocada ou reproduzida em cópias pequenas. Mistura textos, poesias, desenhos, colagens, cartuns, fotos e ideias.
Mais do que um formato, o fanzine é uma prática de comunicação autônoma. Não precisa de editora, patrocínio ou diploma: nasce do desejo de expressar, denunciar, registrar e compartilhar saberes.
No Brasil, o fanzine tem raízes múltiplas:
- É bisneto da literatura de cordel e primo do panfleto político.
- Foi impulsionado pelo mimeógrafo, tecnologia barata e acessível nos anos 1970 e 80.
- Circulou fortemente em coletivos culturais, movimentos estudantis, punk e anarquista nas décadas de 80 e 90, quando virou sinônimo de contracultura impressa.
- Hoje, segue vivo em escolas, ocupações culturais e até em formato digital (e-zines em PDF), mas preserva o espírito manual e popular.
Fanzine é comunicação popular
O fanzine é ferramenta de resistência porque nasce do chão da escola, da casa de cultura, do centro comunitário, da igreja ou da praça.
É comunicação feita à mão, no tempo do povo, no ritmo da comunidade. Pode ser denúncia ambiental, poesia quilombola, manual de cuidado com o rio, protesto contra a falta de ônibus ou homenagem à parteira do bairro.
Exemplo inspirador: o Fanzine Experimental Negritude Religare, criado por jovens do NUFAC (Núcleo de Formação de Jovens em Arte e Cultura Negra) em Imperatriz (MA). Com ele, a juventude negra religou ancestralidade e denúncia social, falando de genocídio, mas também de afeto, memória e cotidiano.
Referência: Projeto NUFAC/Imperatriz (2019), em parceria com a Fundação Palmares e os coletivos culturais maranhenses Associação Cultural Casa das Artes (Valéria Amorim) e Zine Sibita (Lanna Luiza – Lanna Luz Produções).



Dia de produção das cópias para distribuição em escolas e universidades de Imperatriz (MA). Na foto, a comunicadora popular Valéria Amorim com alunos das turmas de Projeto Visual e Produção Cultural. Fotos e colagem: Lanna Luiza
Passo a passo: como fazer seu fanzine
1. Escolha um tema
- Pode ser uma dor coletiva (transporte, violência, saneamento).
- Pode ser memória local (histórias do bairro, saberes tradicionais).
- Pode ser cultura (poesias, música, receitas, mitos).
2. Defina o formato
- Uma folha A4 dobrada ao meio → vira um zine de 4 páginas.
- Dobrada em sanfona → ótimo para cartilhas educativas.
- Encadernado com linha ou grampo → vira livrinho.
- Digital (escaneado e em PDF) → pode circular por WhatsApp.
3. Escolha a linguagem
- Texto simples e direto.
- Colagem com imagens de revistas.
- Desenhos e rabiscos feitos à mão.
- Poemas, letras de músicas, cordéis.
- Charges, cartuns, memes.
4. Monte a página
- Vale colar com tesoura e cola bastão.
- Pode desenhar direto no papel.
- Ou diagramar no computador usando softwares livres (Scribus, GIMP, Canva gratuito).
5. Reproduza
- Tire cópias na papelaria mais próxima.
- Faça tiragens pequenas (20, 50 ou 100 cópias).
- Escaneie e gere um PDF para distribuição digital.
6. Circule
- Distribua em escolas, praças, feiras, rodas de conversa, igrejas, ocupações.
- Entregue em filas do SUS, nos ônibus, nos mutirões.
- Publique versões digitais em redes sociais ou listas de WhatsApp.
Dicas práticas e pedagógicas
- Faça em coletivo: cada pessoa pode criar uma página → o zine vira mosaico de vozes.
- Use a linguagem do seu povo: pode ser reza, raiva, piada ou poesia.
- Faça oficinas: em escolas, CRAS, associações → o zine vira ferramenta de educação popular.
- Valorize a estética popular: xilogravura, bordado, picho, lambe-lambe → tudo cabe.
- Sempre devolva ao território: o fanzine só cumpre sua função quando circula entre quem o inspirou.
Por que o fanzine continua atual?
- Porque é barato: uma folha xerocada pode chegar a dezenas de pessoas.
- Porque é livre: não depende de algoritmos, patrocínios ou filtros editoriais.
- Porque é pedagógico: ensina comunicação com as mãos, com a escuta e com o território.
- Porque é tecnologia popular: tal como o cordel, o bordado e a oralidade, o fanzine transforma papel em memória e resistência.







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