Mini-guia: Comunicação Popular com Fanzine
Aprenda o que é um fanzine, sua história no Brasil e o passo a passo de como produzir. Uma ferramenta barata, criativa e poderosa da comunicação popular.
24 ago, 2025

O que é um fanzine?

O fanzine, ou simplesmente zine, é uma publicação artesanal, feita com poucos recursos, geralmente impressa em papel comum, xerocada ou reproduzida em cópias pequenas. Mistura textos, poesias, desenhos, colagens, cartuns, fotos e ideias.

Mais do que um formato, o fanzine é uma prática de comunicação autônoma. Não precisa de editora, patrocínio ou diploma: nasce do desejo de expressar, denunciar, registrar e compartilhar saberes.

No Brasil, o fanzine tem raízes múltiplas:

  • É bisneto da literatura de cordel e primo do panfleto político.
  • Foi impulsionado pelo mimeógrafo, tecnologia barata e acessível nos anos 1970 e 80.
  • Circulou fortemente em coletivos culturais, movimentos estudantis, punk e anarquista nas décadas de 80 e 90, quando virou sinônimo de contracultura impressa.
  • Hoje, segue vivo em escolas, ocupações culturais e até em formato digital (e-zines em PDF), mas preserva o espírito manual e popular.

Fanzine é comunicação popular

O fanzine é ferramenta de resistência porque nasce do chão da escola, da casa de cultura, do centro comunitário, da igreja ou da praça.

É comunicação feita à mão, no tempo do povo, no ritmo da comunidade. Pode ser denúncia ambiental, poesia quilombola, manual de cuidado com o rio, protesto contra a falta de ônibus ou homenagem à parteira do bairro.

Exemplo inspirador: o Fanzine Experimental Negritude Religare, criado por jovens do NUFAC (Núcleo de Formação de Jovens em Arte e Cultura Negra) em Imperatriz (MA). Com ele, a juventude negra religou ancestralidade e denúncia social, falando de genocídio, mas também de afeto, memória e cotidiano.

Referência: Projeto NUFAC/Imperatriz (2019), em parceria com a Fundação Palmares e os coletivos culturais maranhenses Associação Cultural Casa das Artes (Valéria Amorim) e Zine Sibita (Lanna Luiza – Lanna Luz Produções).

Dia de produção das cópias para distribuição em escolas e universidades de Imperatriz (MA). Na foto, a comunicadora popular Valéria Amorim com alunos das turmas de Projeto Visual e Produção Cultural. Fotos e colagem: Lanna Luiza


Passo a passo: como fazer seu fanzine

1. Escolha um tema

  • Pode ser uma dor coletiva (transporte, violência, saneamento).
  • Pode ser memória local (histórias do bairro, saberes tradicionais).
  • Pode ser cultura (poesias, música, receitas, mitos).

2. Defina o formato

  • Uma folha A4 dobrada ao meio → vira um zine de 4 páginas.
  • Dobrada em sanfona → ótimo para cartilhas educativas.
  • Encadernado com linha ou grampo → vira livrinho.
  • Digital (escaneado e em PDF) → pode circular por WhatsApp.

3. Escolha a linguagem

  • Texto simples e direto.
  • Colagem com imagens de revistas.
  • Desenhos e rabiscos feitos à mão.
  • Poemas, letras de músicas, cordéis.
  • Charges, cartuns, memes.

4. Monte a página

  • Vale colar com tesoura e cola bastão.
  • Pode desenhar direto no papel.
  • Ou diagramar no computador usando softwares livres (Scribus, GIMP, Canva gratuito).

5. Reproduza

  • Tire cópias na papelaria mais próxima.
  • Faça tiragens pequenas (20, 50 ou 100 cópias).
  • Escaneie e gere um PDF para distribuição digital.

6. Circule

  • Distribua em escolas, praças, feiras, rodas de conversa, igrejas, ocupações.
  • Entregue em filas do SUS, nos ônibus, nos mutirões.
  • Publique versões digitais em redes sociais ou listas de WhatsApp.

Dicas práticas e pedagógicas

  • Faça em coletivo: cada pessoa pode criar uma página → o zine vira mosaico de vozes.
  • Use a linguagem do seu povo: pode ser reza, raiva, piada ou poesia.
  • Faça oficinas: em escolas, CRAS, associações → o zine vira ferramenta de educação popular.
  • Valorize a estética popular: xilogravura, bordado, picho, lambe-lambe → tudo cabe.
  • Sempre devolva ao território: o fanzine só cumpre sua função quando circula entre quem o inspirou.

Por que o fanzine continua atual?

  • Porque é barato: uma folha xerocada pode chegar a dezenas de pessoas.
  • Porque é livre: não depende de algoritmos, patrocínios ou filtros editoriais.
  • Porque é pedagógico: ensina comunicação com as mãos, com a escuta e com o território.
  • Porque é tecnologia popular: tal como o cordel, o bordado e a oralidade, o fanzine transforma papel em memória e resistência.
Valéria Diniz de Amorim

Valéria Diniz de Amorim

Especialista em Comunicação, Marketing, Eventos, Branding e Growth, possui formações em Gestão e Produção de Negócios Criativos, Computação Gráfica e Educação. Atua há mais de uma década na criação de estratégias e projetos de comunicação com foco em cultura, educação, acessibilidade, meio ambiente e direitos humanos, especialmente no eixo DF–MA. Fundadora da Candiá Produções (2016) e do Observatório da Comunicação Popular (2025).

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